Carla Fonseca faz pinturas de flores e plantas que impressionam por sua força inesperada, construindo relações simbólicas entre o mundo vegetal e a experiência humana. À primeira vista, suas telas se apresentam como estudos minuciosos de uma mata densa: cipós sinuosos, folhas exuberantes e flores em vermelhos e amarelos intensos. À medida que o olhar se aproxima, porém, essas formas revelam outra dimensão. Nervuras, pétalas e caules parecem pulsar com uma vitalidade própria, evocando desejo, memória, vulnerabilidade e transformação sem abandonar sua identidade botânica. Tingida por uma energia simultaneamente primordial e subconsciente, a pintura de Fonseca faz da natureza um organismo vivo, onde crescimento e decadência coexistem em permanente tensão.
Sua prática dialoga com a tatuagem contemporânea; anos desenhando com agulha e tinta sobre o corpo vivo deixaram marcas perceptíveis em sua gestualidade pictórica e em sua atenção à superfície, à matéria e às formas orgânicas. Fonseca insere-se em uma linhagem mais ampla da pintura brasileira, evocando ecos do legado modernista de artistas como Tarsila do Amaral e Adriana Varejão, ao mesmo tempo em que desenvolve uma linguagem singular, na qual a natureza deixa de funcionar como cenário para assumir o protagonismo da imagem. O muralismo de rua e a potência da arte pública também informam sua escala e presença, enquanto a intimidade do trabalho com a tatuagem orienta seu entendimento da pintura como um campo simultaneamente físico e sensível.
“Minha pesquisa começou investigando o feminino e sua relação com a natureza. Naquele momento, flores, folhas e raízes surgiam frequentemente associadas à imagem do útero. Com o tempo, essa investigação se expandiu. Hoje me interessa construir uma linguagem em que a própria natureza seja capaz de expressar afetos, tensões e transformações da experiência humana, sem precisar representar literalmente o corpo”, explica Fonseca.
Nascida em 1991 em Viçosa, na Zona da Mata de Minas Gerais, Fonseca mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, cidade marcada por intensa efervescência cultural e camadas históricas, vivendo posteriormente também em Recife. Seu trabalho foi apresentado em galerias e instituições em São Paulo e Brasília, incluindo o Museu de Arte Sacra de São Paulo e o Museu Nacional da República, onde realizou sua primeira instalação, combinando mural em carvão e pinturas sobre tela. Sua produção continua a investigar as relações entre corpo, natureza e memória, convidando o espectador a experimentar um universo em que o vegetal não ilustra a condição humana, mas oferece outra forma de compreendê-la. Com intensidade silenciosa, suas pinturas revelam a natureza como uma presença autônoma, capaz de condensar desejo, fragilidade, permanência e transformação.
— Simon Watson

SEM TÍTULO / 2025 / 20 X 20 CM / TINTA A ÓLEO E ENCÁUSTICA SOBRE TELA DE ALGODÃO / R$1.350

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SEM TÍTULO / 2024 / 20 X 20 CM / TINTA A ÓLEO E ENCÁUSTICA SOBRE TELA DE ALGODÃO / R$1.350

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PAISAGEM D O MEU INCONSCIENTE / 2024 / 40 X 30 CM / TINTA A ÓLEO E ENCÁUSTICA SOBRE TELA DE ALGODÃO / BR$3.000
