Apresentamos na Kovak & Vieira a primeira exposição individual da paulistana Catia Goffinet. Com formação e atuação nos campos das ciências humanas e exatas, a artista desenvolve uma produção multifacetada e intrigante, que combina elementos dessa rara trajetória com reflexões sobre o mundo que habitamos — e no qual (sobre)vivemos.
A mostra reúne duas séries produzidas ao longo dos últimos onze anos, estruturadas em duas linhas de trabalho: uma de linguagem abstrata e outra figurativa.
À primeira vista, essas séries podem parecer dissonantes em termos de solução plástica. No entanto, ambas emergem de um mesmo conjunto de questões: qual função exercemos no complexo mundo de hoje? qual lugar ocupamos? qual legado deixaremos? o que singulariza a nossa existência diante dos avanços tecnológicos, estéticos e filosóficos?
Vivemos, como aponta o filósofo e ensaísta Byung-Chul Han – muito caro à artista –, numa sociedade do cansaço, marcada pelo imperativo do desempenho individual, em que cada sujeito se torna “empresário de si mesmo”, operando dentro de uma “economia da sobrevivência”. Essa ferida — muitas vezes não reconhecida como tal, mas naturalizada — é, na realidade, coletiva. E, as obras de Catia Goffinet nos convocam a refletir sobre essa condição sob diferentes perspectivas.
Na série abstrata, a artista organiza formas geométricas que, sobrepostas em velaturas, se desdobram progressivamente. A partir de um mergulho nas suas próprias inquietações, Catia constrói composições que oscilam entre abertura e fechamento, entre controle e descontrole, entre lógica e ilógica. As formas parecem dançar diante do olhar, convidando à contemplação e à meditação, ao mesmo tempo em que abrem espaço para interpretações individuais. Trata-se, também, de um gesto de resistência frente a uma “sociedade de alto nível de barulho”. Ela nos mostra que podemos concentrar e fixar em algo, distanciando-nos do ruído ensurdecedor.
Já na série figurativa, encontramos representações de corpos em queda. Pintadas sobre a superfície fria e leve do alumínio — suspensas no espaço expositivo —, essas figuras incluem mulheres, homens, noivas, adolescentes, executivos e esportistas. Não sabemos de onde vêm nem para onde vão. Os enquadramentos inesperados capturam o instante da queda como algo inevitavelmente desordenado, irregular e imprevisível.
A sociedade não padronizou o roteiro de uma queda, nem a forma estética que ela supostamente deveria ter. Felizmente. A ausência de rostos nas obras reforça a dimensão universal dessas figuras: não se trata de indivíduos específicos, mas de todos nós. A recuperação da individualidade e a libertação de padrões sufocantes de desempenho constituem o eixo central da obra de Catia Goffinet. A artista nos faz parar, pensar e empreender uma volta a nós mesmos por meio de uma “expedição ao silêncio”.
