Ondas, flores, pétalas, redemoinhos, nuvens, conchas, areias banhadas pelo mar… Lugares possíveis surgem em nossa imaginação ao nos encontrarmos com as criações da artista Valeria Rocchiccioli – Vavi.
Embora nutra profunda admiração pela natureza, suas obras não buscam representar fielmente qualquer elemento natural. São, antes, construídas em diálogo vivo com os materiais que utiliza, sem uma imagem final previamente definida. Tal diálogo com os materiais encontra raízes tanto em sua história familiar — marcada pelos ensinamentos do tecer e da costura aprendidos com a
avó e outras mulheres da família — quanto em sua formação em desenho industrial, da qual emergem resíduos característicos de nossa sociedade de consumo: plásticos, alumínios,
tampinhas, papéis. Ao costurar esses elementos descartados em formas crescentes e arredondadas, por vezes evocando a proporção áurea presente na natureza, Vavi atribui nova intenção ao que parecia
liquidado. Ao oferecer uma segunda vida aos materiais, a artista também nos convida a imaginar outras possibilidades de existência.
Nesta exposição, Vavi traz, pela primeira vez, trabalhos realizados não apenas com materiais descartados, mas também com itens adquiridos no Japão, como papéis de origami e mangás, aproximando referências ligadas tanto à contemplação silenciosa dos origamis quanto à expressividade comunicativa dos mangás. Com delicadeza e precisão, a artista costura papéis japoneses, aproximando tempos, lugares, histórias e memórias. Tanto nesses trabalhos quanto naqueles realizados com itens descartados — que constituem o maior corpus de sua produção —, seu gesto acontece de maneira progressiva e
paciente, permitindo que novas formas e vocações emerjam dos próprios materiais. Nesse sentido, o pensamento do antropólogo britânico Tim Ingold parece ecoar na prática da artista, ao afirmar que “as formas das coisas não são impostas externamente sobre um substrato inerte de matéria, mas continuamente geradas e dissolvidas nos fluxos dos materiais”¹. Para Ingold, as coisas são vivas e ativas não por possuírem um espírito, mas porque as substâncias que as constituem permanecem atravessadas pelas circulações do mundo ao redor, em constante transformação e regeneração²
.
E é justamente nesse espaço entre dissolução e renascimento que Vavi opera. Ao costurar materiais descartados, papéis, memórias e ações, a artista não apenas atribui novas formas ao que parecia esgotado, mas cria condições para que outras circulações, imaginações e modos de existência possam aparecer.
¹Tim Ingold, Materials against Materiality, Archaeological Dialogues, v.14, n.1, 2007, p. 11.
²op. cit., p. 12.

ORIGAMI PINK PAPER / 2026 / 58,5 x 58,5 x 7,00cm / R$12.000

ORIGAMI PAPER CORAL / 2026 / 58,5x 58,5x 7,00 cm / R$ 12.000

ORIGAMI PAPER BLUE / 2026 / 58,5x 58,5x 7,00 cm / R$ 12.000

ORIGAMI PAPER VIOLET / 2026 / 58,5x 58,5x 7,00 cm / R$12.000

ORIGAMI PAPER GREEN / 2026 /.58,5x 58,5x 7,00 cm / R$ 12.000

ORIGAMI PAPER YELLOW / 2026/ 58,5x 58,5x 7,00 cm / R$ 12.000
