imagens e depoimentos
Criada em 1988, a Marcha da Vida é uma contraposição às famigeradas marchas da morte, as longas caminhadas que as forças nazistas obrigavam que prisioneiros fizessem, sobretudo no fim da Segunda Guerra Mundial. Anualmente, o programa educacional reúne judeus de todo o mundo na Polônia, onde realizam uma caminhada de três quilômetros entre Auschwitz e o campo de extermínio de Birkenau, dois dos símbolos do Holocausto.
O Holocausto se refere ao processo sistemático e institucionalizado de discriminação, perseguição antissemita e tentativa de aniquilamento iniciado na Alemanha nazista em 1933, que levou ao genocídio de seis milhões de judeus até a liberação do último campo, em 1945.
Ao longo de quase quatro décadas, a Marcha da Vida se consolidou como um programa capital na construção da identidade das novas gerações e um dos mais significativos espaços de encontro entre memória, educação e pertencimento. Seu sentido se constrói sobre uma inversão simbólica poderosa: transformar a lembrança da morte em afirmação da vida. Um gesto coletivo e uma resposta consciente à opressão.
Diante da palavra “Holocausto”, o pensamento imediato costuma ser a morte; e com ela, o ódio, o mal, o luto e o extermínio. Porém, a memória precisa ultrapassar esse limite. Importa-nos saber como essas pessoas viveram, e não apenas como morreram; como resistiram, sonharam e, em alguns casos, foram resilientes. Ao destacar a vida, reafirmamos que eles não formavam uma massa amorfa, mas indivíduos com rostos, nomes e histórias.
Na tradição judaica, o número 18 corresponde ao valor numérico da palavra chai, que significa “vida”. Por isso, esta exposição reúne exatamente 18 fotografias, cada uma delas inspirada nesses olhares e concepções de “vida”. São registros de “marchantes”, viajantes que caminharam não para repetir o percurso da dor, mas para reafirmar o valor da existência, da dignidade e da lembrança.
Marchar pela vida é lembrar — e, sobretudo, não esquecer.
Carlos Reiss é coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba e neto de quatro sobreviventes da tragédia. Membro do comitê executivo da Rede Latino-Americana para o Ensino da Shoá (LAES) e curador do Memorial às Vítimas do Holocausto do Rio de Janeiro. Curador-chefe da exposição “Anne Frank: deixem-nos ser”, em São Paulo. Entre 2021 e 2025, delegado brasileiro na Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).
Artistas
Lea Dorf
Juliana Cambur Berger
Daniel Leon Bialski
José Beznos
Lucianne Korn
Bruno Korn
Liat Chalom
Nicole Finkel Silberberg
Flávio Silberberg
Eduardo Len
Alicia Chaco
Tali M. Ajbeszyc
Lycia Kattan
Julie Harari Negrin
Lara Turkie Schnaider
Andrea Cohen
Sandra Chayo
Berel Weitman
Catálogo
“Essa foto foi tirada no bairro Kazimierz, em Praga. Esse distrito leva o nome do rei que teve uma política inclusiva e benevolente com os judeus poloneses no século XIV e simboliza a prosperidade judaica na Polônia. Hoje, encontramos traços dessa rica herança em Kazimierz. Mas não vimos judeus morando lá. Um bairro judaico… sem judeus.” (Foto: Lea Dorf)
“Poderia ser apenas um vagão comum – mas não era. Sobre esses trilhos e por trás dessas portas, havia apenas dor, desespero, medo e a luta constante pela sobrevivência – sem saber que o pior ainda estava por vir.” (Foto: Juliana Cambur Berger)
“Não importa quando ou onde, nossa união e resiliência foram, são e sempre serão incomparáveis.” (Foto Daniel Leon Bialski)
“Símbolo de dor e resistência esse monumento na entrada do campo de Majdanek materializa a lembrança das vidas perdidas e do sofrimento dos dias de terror.” (Foto: Liat Chalom)
“Meus avós contaram, meus pais contaram, meus filhos me contaram – eles já estiveram aqui. Os livros, os filmes, todos falaram. Mas só pisando neste lugar é possível compreender, de verdade, a dimensão da barbárie. É inimaginável. Éramos 11 milhões de judeus; 6 milhões foram assassinados. Ainda assim, nos reerguemos. Estamos aqui – para que isso nunca mais se repita.” MAJDANEK CONCENTRATION CAMP (Foto: Nicole Finkel Silberberg)
“Never Again” Campo de concentração – Majdanek (Foto: Flávio Silberberg)
“Este é o memorial dedicado a Janusz Korczak, erguido no antigo gueto de Varsóvia. A imagem da estátua é profundamente comovente: Korczak segura uma criança nos braços enquanto outras crianças o seguem, como se estivessem sob sua proteção até o último instante.
Janusz Korczak, médico, educador e escritor judeu, teve inúmeras oportunidades de salvar a própria vida durante o Holocausto. Mas ele recusou todas. Optou por permanecer com as mais de 200 crianças do orfanato que dirigia, acompanhando-as até o fim, quando foram deportadas para o campo de extermínio de Treblinka.
É impossível olhar para essa escultura sem sentir o peso silencioso da coragem, da ternura e do sacrifício. As pequenas oferendas ao redor — bichos de pelúcia, flores, velas — são gestos de memória e amor, como se cada objeto dissesse: “Nós não esquecemos.”
Este não é apenas um monumento — é uma prece em pedra. Um lembrete eterno de que, mesmo na mais sombria das noites, ainda existem faróis de humanidade.” (Foto: Lycia Kattan)
The book of Names – “Vi rostos curiosos buscando e buscando. Poderiam estar procurando seu nome numa premiação ou numa competição. Um anúncio geralmente vitorioso. Mas, dessa vez, não. Procuravam seus sobrenomes. Estes, quando encontrados naquele livro, eram certamente a resposta que mais machuca a alma, pois eram acompanhados de seu trágico destino: o caminho da morte.” (Foto: Julie Harari Negrin)
“Bring Them Home Now” – Auschwitz, Polônia
“O trilho enferrujado que atravessa Auschwitz permanece como cicatriz do século XX. Por ele, passaram milhares de vidas — levadas sem volta. Um pequeno adesivo com os dizeres “Bring Them Home Now” rompe o silêncio do lugar. Um gesto de resistência contra o esquecimento do que passamos e da constante luta contra o antissemitismo.” (Foto: José Beznos)
“Onde havia cercas ainda ecoam gritos. A ferrugem não esconde o horror, apenas o conserva.” (Foto: Lucianne Korn)
“Cada sapato um passo interrompido que carrega uma vida arrancada antes da hora. Eles não caminham mais, mas continuam nos guiando pelo dever de lembrar.” (Foto: Bruno Korn)
“A luz atravessa o vitral da Sinagoga Espanhola de Praga, que filtra a memória, a fé e a força de um povo que nunca se apagará.” (Foto: Eduardo Len)
“Eu acredito! Tentaram nos destruir, tentaram nos exterminar. Uma, duas…tantas vezes! Mas eu acreditei. Eu me levantei e provei a tantos – ontem e hoje! – que o amor à vida, a fé a e luz do povo judeu jamais serão apagados.” (Foto: Alicia Chaco)
“Os trilhos de um caminho que deveria ser de esperança, mas que na verdade foi uma dura e longa jornada dos nossos antepassados. Nossos heróis que aguentaram tanta dor e sofrimento. Graças a eles, estamos aqui hoje!” (Foto: Tali M. Ajbeszyc)
“Porque apesar de muito duro estar nesse lugar de tanta dor e morte, hoje andamos erguidos, firmes e fortes, e juntos somos muito mais fortes!” (Foto: Lara Turkie Schnaider)
“Da discriminação nos guetos à crueldade nos campos de extermínio, vivenciamos o luto por tantas histórias de vida interrompidas de maneira tão cruel. Pisar nos trilhos de Auschwitz – Birkenau ressignifica a dor e a transforma em sentimento de vitória. Sobrevivemos! Am Israel chai.” (Foto: Sandra Chayo)
“Os escombros, as pedras, cada pedacinho de qualquer coisa contam muito. Muitos sentimentos – de dor, de raiva, de ódio ou até mesmo de amor. Amor, porque apesar de nossos antepassados terem passado por tantas maldades, eles conseguiram se superar e se unir para que, ao final de tantas tragédias, fundassem um país que, apesar de pequeno em dimensão, é imenso em histórias enraizadas em nossas veias. Um Estado cheio de esperança e energia – o Estado de Israel – representado por essa única pedra nas cores azul e branca, com a estrela de Davi no centro, em meio a tantas outras sem cores e sem vida.” (texto: Andrea Cohen/Foto: Tali M. Ajbeszyc)
“Entre luzes e letras, a sabedoria reúne a história e a fé” – (Foto: Renata Len)
